Words are inert.

Fiquei acordada durante a madrugada inteira mais uma vez. Minhas costas doem por ficarem encostadas de mal jeito em dois travesseiros empilhados e encostados, também de mal jeito, na cabeceira da cama. Imagino se eles também estão sentindo dor. Queria levantar e fazer um pouco de café pra mim, mas me falta o ânimo. E tá um pouco frio fora do edredom.
Meio velho, aliás. O edredom, não o frio, nem o café que eu não fiz - se eu não o fiz, não tem como estar velho, certo? Certo, mas eu não quero pensar sobre essas coisas. Não quero porque você não está aqui com aquela caneca da banda que você gosta. Você não está aqui com aquela camiseta preta do Stewie. Você não está aqui, e pensar em café e edredom e dor nas costas só tem feito sentido com você por perto.
Já escrevi e apaguei tanta coisa aqui. Foi quase um maço inteiro nessa brincadeira de transformar em palavras o que eu sinto. Não consegui. Por que será que é tão difícil nomear a grandiosidade do que a gente tem por dentro? Eu preciso escrever, preciso tirar de mim essa coisa que ameaça transbordar de cada poro da minha pele.

Outro dia eu lembrei de quando eu andei da Concorde até o Louvre e conheci um senhor poliglota conhecedor do mundo. Lembrei do croque monsieur do Cafe de la Paix e do macarrão com salmão do Santa Lucia. E na minha última noite lá, ouvi Radiohead enquanto a torre Eiffel acendia. The moment's already passed, yeah, it's gone. Tive vontade de chorar. Gostaria de ter compartilhado o momento com você.
Tenho pensado muito em várias coisas. Algumas importantes, mas a maioria não. Pensar em coisas importantes é uma tarefa difícil pra mim, já que a maioria delas dói bastante. Sendo assim, ocupo minha mente com assuntos pequenos. Possíveis misturas de cores na paleta de pintura, meu som desregulado que faz os graves latejarem dentro da cabeça, vontade de pão com manteiga na chapa, os besouros metálicos que aparecem no meu quarto de vez em quando. O difícil é controlar o que eu penso para que os tópicos importantes não me atinjam com força. Sua partida é um deles. Eu me pergunto todo dia como é que vai ser quando você for embora, como é que vai ser quando estiver frio fora do edredom e você não estiver aqui pra me esquentar, como-é-que-vou-ser.
Mas eu não quero falar sobre isso. Não quero porque você não está aqui com aquela sua mochila bege esverdeada que carrega quadrinhos. Não quero porque você não está aqui debaixo do edredom comigo.
Não quero falar sobre isso. Não hoje.


Olha,

Eu acordei hoje e vi que não valia a pena. Só vi, não senti. Estou parada entre a razão e a emoção.
A manhã tem cheiro de cigarro e café forte, mas isso não faz mais diferença pra você. Nem pra mim. Não do jeito que costumava fazer.
Queria poder ligar para o Caio e chamá-lo pra sair, mas eu duvido da existência de telefones lá onde ele está agora.

Não quero falar sobre como eu me sinto, como me senti, como me sentirei. Quero saber do que acontece aí dentro de você, nesse lugarzinho mórbido e bizarro que é o seu interior. Quero saber o que te fez mudar de ideia, o que te faz ser tão estúpido.
Quero conseguir escrever em poucos cinco minutos, porque quando eles se passarem eu já estarei mudando de ideia.
Mudei.
Anunciarei a desistência. Minha, dessa vez. Desisto.

Mas se você aparecesse com uma flor, um olhar e três tiros nas costas, os cinco minutos voltariam. O tempo funciona assim.

Um dia inteiro, o inteiro de um dia. O dia de um inteiro.

Os ipês brancos estavam florescendo. Galhos sem folhas, somente flores. Parecia que havia nevado, mas fazia calor. Era a minha época do ano preferida.
Os dias começavam cinzentos e iam amarelando e roxeando até ficarem pretos e estrelados, e as manhãs eram como ganhar o primeiro pedaço do bolo de aniversário de alguém que a gente gosta quando é criança. Aquela corzinha clara das manhãs entrava por todos os poros da minha pele e me fazia feliz. E então ia chegando a hora do almoço e depois a tarde e depois a noite e eu ia morrendo por dentro enquanto isso. E deitava em minha cama pra ansiar pela cor clara da manhã seguinte.

Olho pela janela e vejo concreto.

Quem é que pode dizer o que é normal? Quem é que pode apontar o dedo pra minha cara e dizer que minha visão de mundo é errada? Me explica, quem no mundo acha que pode se dar ao direito de contestar os meus sonhos?
A realidade é relativa. Eu vejo o mundo com os meus olhos. Vejo azul onde acho que é azul. Você também vê azul onde acha que é azul, e então eu me pergunto: a cor que você vê é a mesma que eu vejo?
Os loucos ficam no hospício. Os loucos vêem e sentem coisas que não existem. E então eu me pergunto: quem apontou o dedo pra cara deles e disse que nada daquilo é real? O normal é chato, o normal não atrai. O seu terno é preto, a sua expressão é de cansaço. A sua realidade é aquela velha história de eu-olho-somente-para-as-coisas-que-foram-tidas-como-certas. Mas não está nada certo. Ou está.
Eu gosto de brincar de faz de conta. Gosto de imaginar que existem mundos diferentes deste. Gosto da realidade presente na minha imaginação. E aí sou chamada de louca. Prefiro ser louca a ter aquela cara de cansaço e fadiga e conformação.

Olho pela janela e vejo árvores com pseudo-neve.

Uma novidade: os movimentos de rotação e translação não pararam. Nós continuamos aqui, girando e girando e girando sem ficarmos tontos.
Uma constatação: estamos todos sozinhos.

Ele apareceu naquela noite de Janeiro, ou Fevereiro, não sei direito. Tenho certeza de que não era Março, porque em Março nós já estávamos juntos. E eu lembro do olhar de menino-criança, menino-perdido, menino-que-me-apresentou-a-nicotina. E a nicotina era, pra gente, o pior dos males naquela época. E então teve bastante jurupinga e vodka barata. Bastante música e bastante insegurança. Metade disso acabou na véspera do meu aniversário. "Seremos amigos, somente amigos. Amigos, porque eu não quero simplesmente te tirar da minha vida". Depois teve mais música, e teve também aperto no peito. No meio disso, teve uma cama quebrada, um quarto em chamas, cerveja, alguns beijos e Jim Sturgess cantando Beatles.
Ele arranjou uma namorada, eu tive meus rolos. Capotamos. E aí veio a maconha, a Penny Lane, o projeto de Magical Mistery Tour. E brigas, muitas brigas, muitas discussões, muitas lágrimas e muito rancor. Mas todos permaneceram juntos. E chegou a cocaína, a tentativa de suicídio, os remédios, say it now cause in your heart it's loud. Sexo. E o amor voltou. O amor que não tinha ido embora, apenas se escondido. Os olhos de menino-criança e menino-perdido continuam, mas me parecem mascarados por uma dor já cansada.

As flores dos ipês brancos caíram porque as folhas já querem voltar. E eu continuo louca. A cor da manhã hoje é um verde quase branco, e tem cheiro de nuvem. O meu azul continua sendo azul, e o seu também. Olho pela janela e vejo chuva se formando, e enquanto permaneço dentro dessa caixa gigante de vidro e concreto, percebo que a terra continua girando.
E nunca vai parar.

Carnaby

O vento gelado queimava meu rosto e isso ardia como um golpe de chicote. Acendi um cigarro pra tentar me distrair, mas não adiantou muita coisa. Aliás, não adiantou nada.
Será que é esse o lugar certo? Pensei um pouco mais alto do que pretendi. Olhei para cima e vi o letreiro do hotel. Thistle. Na parede do outro lado da rua a placa indicava Withcomb Street. Era lá mesmo. Comecei a andar até achar a estátua de um anjo em frente ao Picadilly Circus, e a quantidade de gente era tão grande que quase me sufocava.
Eu não sabia direito pra onde estava indo, mas sabia que tinha que ir. As pessoas andavam bêbadas e cambaleantes naquela noite de sábado, rindo muito alto ou então vomitando em algum canto. Algumas haviam saído de algum pub ou danceteria, outras tinham vindo direto de Chinatown. Alguns caras com cabelos raspados, calças bem apertadas e coturnos extremamente grossos estavam indo atrás de um grupo de homossexuais escandalosos. O desfecho disso eu já sabia.
Sentei um pouco ao pé da estátua de anjo, que formava uns degraus confortáveis. Eu estava tremendo de frio, e apesar do mármore frio estar piorando a situação, me senti extremamente bem ali. Uma menina muito bonita passou me olhando e sorriu. Um menino com um casaco de couro com spikes sentou ao meu lado e pediu meu isqueiro emprestado.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas a quantidade de gente tinha diminuído um pouco. Me levantei e continuei meu caminho, dessa vez indo pela Oxford Street. Andei pouco até achar um beco que me pareceu interessante. Comecei a andar por ele com um pouco de medo. Havia ali alguns pequenos grupos de pessoas cujas roupas eu não conseguia ver. Passei bem perto de um deles, e notei seringas e agulhas. Heroína.
Mais pra frente havia uma placa que dizia Carnaby Street. Aquele nome não me era estranho. O vento ali já não era tão forte. Acho que por causa das construções altas que não o deixavam fluir. Essa rua era iluminada e cheia de gente, mas não tanto quanto o inferno que era o Picadilly, deixando a caminhada até agradável. Minhas botas estavam apertanto meus pés.
Vi uma fila em frente a um pub. O letreiro tinha um fundo branco e dizia Marquee Club em vermelho. Me posicionei atrás da ultima pessoa da fila.
Fiquei quinze minutos lá, e esses minutos pareceram horas. Pude pensar em muitas coisas. Não que eu quisesse pensar nelas, mas era praticamente inevitável. Pensei no frio, nos barulhos da noite, nas luzes, na ausência de lua, nas nuvens formando uma grande chuva. Pensei em como eu havia parado ali, mas não consegui chegar numa conclusão condizente com a realidade.
O homem da porta, alto, forte e vestido com uma camiseta do Pink Floyd feita por ele mesmo pediu minha identidade. Não acreditou que a pessoa da foto era eu, e eu perdi mais uns bons minutos - horas - convencendo-o de que era legítimo. Entrei.
Peguei uma cerveja no bar. Não que eu estivesse com vontade de beber, mas ter algo nas mãos me parecia apropriado. A temperatura lá dentro era agradável e acolhedora. A música também. Um arranjo com violinos meio desafinados, e a uma voz cantando 'she comes in colors everywhere, she combs her hair. She's like a rainbow'. Eu conhecia aquela música, mas não lembrava de onde.
Então outra música começou. "You wake me in my sleeping hours like a cloud. So please, carry the lantern high". Lembrei do meu pai colocando um disco na vitrola. Lembrei do violino da música anterior, e lembrei de quando ele me chamava de Rainbow e dizia que aquela música havia sido feita pra mim. lembrei da felicidade que ele exalava quando chegava a hora da música que estava tocando no momento. Lembrei de quando me entregou a capa bem conservada disse pra eu escutar aquele disco sempre que sentisse saudades dele. Disse que morava em cada acorde de cada música.
Então a imagem da capa veio estampada em minha mente. Aquela imagem com uma borda azul com nuvens brancas que envolvia uma outra imagem, essa bastante colorida. E eu lembrei. Lembrei o que eu estava fazendo ali, lembrei de como fui parar ali.
Rolling Stones estava tocando, e eram as m
úsicas do disco do meu pai.
Aquele era o meu lugar.

Vapor de Nada.

Preciso tirar tanta coisa de dentro de mim, mas não encontro as palavras certas.
Eu, aliás, em momento algum encontro as palavras certas. Nunca encontrei, e a impressão que tenho é de que isso nunca vai acontecer.

Existe um monte de coisa que eu gostaria de falar pra algumas pessoas, mas me faltam as palavras. Me faltam gestos, me falta coragem. Sempre tive muito medo de me expressar, e sempre que o fiz, foi da maneira errada, com as letras erradas, com os movimentos e motivos errados.
Sempre foi muito difícil. Não sei se é vergonha dos meus sentimentos, se é insegurança, se é besteira da minha cabeça.
Às vezes sinto que estou esperando por alguma coisa, algum sinal. E espero, espero, espero, espero sem vontade de esperar, mas espero, e continuo esperando sem nem saber exatamente o quê ou por quê. Eu nem sei se realmente espero, ou se só tenho a ilusão de que o faço.

E ontem pensei nisso enquanto eu tomava banho, e toda aquela água, todo aquele vapor e toda aquela melodia que saía das caixas de som me fizeram chorar. Chorei por mim, por você, pelos meus dedos que estavam ficando enrugados. Chorei de medo, de sono, de cansaço, de frio, de dor. Chorei pela decepção de esperar que aquela água quente lavasse e tirasse tudo o que eu tinha dentro de mim. Chorei por lembrar da visão da janela do avião, que envolvia a lua, as nuvens e milhões de estrelas, e chorei também por não conseguir descrever a beleza que eu via naquilo.
Mas principalmente, chorei por não saber exata e claramente o porquê.

E nada, nada de tudo o que eu guardo conseguiu sair.

Message In The Bottle.

D.G.,
Sei que ja faz tempo, sei que nós nos desentendemos e que nossa relação ficou frágil e incerta, chegando a romper-se completamente. Sei que você não quer mais me ver, ou sequer ouvir falar de mim, mas eu precisava escrever-te.
Você se lembra do café, dos óculos, do violão? Do teto que te dava tontura, da escada, do lago?
Eu não sei o que te fez mudar tanto. Juro que não sei. Hoje eu sinto que foi tudo mentira sua, e isso é o que me machuca mais. Você me fez precisar da sua voz, da sua companhia. Você entrou na minha vida e, dentro dela, fez uma revolução. E eu que antes era tão vazia, senti-me inundada de cores. Você se tornou meu chão, meu apoio, e até hoje eu chego em casa de madrugada esperando que apareça. Mas você mudou.
Eu por muito tempo achei que te odiasse, mas esse é um sentimento que não consigo segurar. Não em relação a você. Eu estou chateada, eu estou decepcionada, eu me sinto traída, mas não consigo deixar de sentir afeto. E mesmo odiando quem se tornou, não consigo deixar de me importar contigo. Chego a te achar patético, mas o significado que sua presenca teve pra minha vida supera isso.
Muito, muito tempo se passou, e essa é a primeira vez que tento falar sobre isso. Sinto as feridas quase curadas pinicarem em minha pele, e chega a doer
Sabe, a questão do sexo não foi o que me magoou. Quando cumprimos o combinado feito, eu não me senti mal. Eu continuei agindo como sempre, porque o que mais me preenchia era a amizade e o companheirismo. Lembro das várias piadas internas, das várias brincadeiras sem graça, das suas lágrimas molhando minha perna no dia de finados. Você parecia gostar de tudo isso. E mesmo assim, sem nenhuma explicação, mudou. Sei que vai pensar que é coisa da minha cabeça, afinal, você mesmo já me disse isso, mas eu acho que no fundo, sabe que é verdade. Eu perdi muito mais que um melhor amigo, perdi um irmão. Perdi minha felicidade, e também meu chão. Parte de mim foi embora com você.
Eu me lembro da música, do desabafo, do acidente, dos cigarros. E você, do que lembra?
Com muito amor,
T.

The Last Symphony

Eu fiquei um dia inteiro na cama, prostrada, desorientada, usando aquele vestido que você dizia gostar muito. Ele parece realmente sem graça sem você por perto. Seu cheiro exalava do meu travesseiro, e a minha coragem de soltá-lo diminuía conforme as notas do piano ecoavam cada vez mais densas e vivas dentro da minha cabeça. Ah, o piano... Nosso piano. Você sentado em frente a ele, tocando aquela música tão nossa do Debussy. Eu me sentia maravilhosamente pequena perto de você.
O piano, o sorriso, a voz, todos desenhados na fronha molhada de suor agora tão meu, mas antes tão seu. Eu podia ver claramente o dia em que você apareceu na cozinha com uma pequena caixa de veludo nas mãos, e me guiou até a sala, vendando meus olhos. Ouvia o violino tocando aquela música doce, azulada, e o buquê de lírios em cima da mesinha de centro, e a aliança girando em arrepios dentro da caixinha aveludada.
O seu sorriso preenchia cada pedacinho de mim, e os planos muito bem sonhados dançavam no ar na manhã de cada domingo.

Eu fiquei um dia inteiro na cama, prostrada, desorientada, posicionada de modo que não pudesse ver o lado esquerdo do armário, agora frio e triste sem suas camisas e paletós.
Onde você foi com a nossa sinfonia?

A Little Accident.

Eu nunca tinha dado muito valor nessa coisa de aproveitar a vida. Nunca tinha entendido. Todo mundo fala que tem que acontecer alguma coisa conosco para que realmente nos importemos, e eu sempre achei que fosse besteira. Até aquele dia.
Não consigo explicar o que senti quando vi tudo girando... Foi uma mistura gigantesca de sentimentos. O barulho da roda batendo no meio-fio e do carro pousando no chão foram, pra mim, ensurdecedores. Os outros não lembram desses sons. A única coisa que eu pensava enquanto o carro rodava era 'acabe logo, acabe logo, acabe logo'.
O gui abriu o porta malas e saiu. Foi ajudar as outras pessoas a saírem do carro pela porta da frente. Saí pelo mesmo lugar que ele e, nessa hora, só pensava em entrar lá de novo para pegar meu tenis, que tinha saído do meu pé. Eu ainda não havia me tocado do que tinha acontecido. Depois que todos saíram, entrei e peguei meu all star - nessa hora marrom - branco. Saí de dentro do carro novamente, calcei o que tinha pego. Vi o carro de lado, completamente amassado. Minhas pernas bambearam e eu comecei a chorar. Acendi um cigarro.
A vida é sim muito frágil. Nós poderíamos ter morrido dentro do Jet, o Jatinho, dentro do Fox Submarine. Dentro do carro de onde tiramos todos os fandangos que caíram nos tapetes e nos bancos duas horas antes... Onde, naquele dia, avitamos fumar por causa do cheiro que ficaria. Aquele carrinho preto que tocava as melhores músicas do mundo e que nos levou pra todas as praças, picos, postos, parques abandonados... Que nos levava pra casa.
Eu continuo sem medo de morrer. Não acho que devemos ter medo de algo que acontece com todo mundo, que é natural. O que me preocupa é quando isso pode acontecer, porque pode não ser a hora, assim como não foi naquele dia.
We all used to live in a Fox Submarine.

Nove do Dez de Dois Mil e Dez.

Era sábado, lá pelo meio dia, no centro da cidade. Ao contrário do que costuma acontecer, estava frio - ou talvez fosse só a minha febre se manifestando. Eu estava esperando, como de costume depois da aula de desenho, pelo carro cinza com a placa iniciada por DQX estacionar frente à escola, para eu ir pra casa. Entediada.
Uma coisa - e talvez a única - que eu gosto de fazer enquanto espero é observar as pessoas que passam por lá. Sempre vejo um casal de velhinhos andando de mãos dadas, cada um com sua aliança na mão esquerda, em passos lentos e tranquilos. Gosto de imaginar que estão juntos há muito tempo, e acho isso extremamente bonito. Quase me faz acreditar em amor. Talvez na época em que se casaram, ele realmente existisse.
Mas isso não aconteceu, eles não passaram por lá naquele dia.
E outra coisa me chamou a atenção.
Descendo a rua, com um andar perdido, quase enigmático, vinha um senhor já de bastante idade. O que notei, foi que ele olhava bem no fundo dos olhos das pessoas por quem passava. Por um instante, o achei estranho.
Lembrei-me do dia em que um outro senhor passou por mim, parou, voltou à minha frente e disse "Essa cor de cabelo ficou ótima em você. Não mude nunca!".
Quando saí dessa lembrança, o senhor do passo misterioso estava quase passando por mim. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete segundos, e ele chegou onde eu estava. Olhou em meus olhos, com os seus, que pareciam maiores que o normal devido aos óculos de lentes grossas. E foi então que vi.
Os olhos pareceram maiores ainda, e o que eu senti foi inexplicável. Vi tanta coisa naqueles olhos quase pretos... Vi uma súplica, um desejo extremamente enorme dizendo 'É você? Por favor, me diga que é você!". Vi uma coisa cinza, sem forma, sem identidade, vazia. Vi uma tristeza e uma falta de conhecimento de tempo e espaço tão cortante, que tive vontade de me desculpar, de dizer que não era eu, mas que daria tudo pra que fosse, praquilo tudo sair dos olhos dele. Era como se ele tivesse perdido algo. Ou melhor - pior -, alguém. Ele procurava alguém conhecido em cada olho que via. Talvez não fosse alguém conhecido, mas alguma coisa, qualquer coisa familiar. Tive vontade de chorar.
Não encontrou em mim, e continuou andando, procurando tudo o que faltava nele nos olhos das outras pessoas.
Tive mais vontade ainda de chorar.


Não, eu não consigo expressar com palavras o que vi nos olhos dele. Não há nada que explique.

Uma História Sem Borboletas.

Vem cá, toma, acende esse cigarro. Senta aqui no sofá, esquece isso. Falemos sobre as palavras dos queridíssimos Mário Quintana e Hilda Hilst, falemos sobre as cores. Toma, uma xícara de café. Engole a indiferença com esse líquido preto e morno, que eu não gosto de te ver assim. Era meio alaranjada, ela respondeu. E fria, também. Mas isso não é uma cor.
Não mesmo, mas também serve. Acendi outro cigarro, e ela permaneceu quieta, contemplando a fumaça que saía do Marlboro recém jogado no cinzeiro, que subia num fio tênue e dissipava-se conforme atingia uma altura maior. Tive vontade de mandá-la embora, de apagar o cigarro em sua lingua, depois acender outro e apagá-lo em seu olho esquerdo. O que diabos era uma manhã alaranjada e fria? Uma manhã alaranjada e fria significa.., ela sussurou, quebrando o silêncio. Talvez tivesse entrado em minha mente. Talvez manhãs alaranjadas e frias fossem aquelas que te ensinam a ler pensamentos. Significa uma manhã como outra qualquer, exceto pelas pessoas. Ela passou a olhar pra dentro da própria xícara de café. Elas se tornam mais deprimentes do que habitualmente são, e isso é assombroso. É como se te olhassem querendo te devorar, e não no sentido bom. E quando você olha pra elas, vê apenas um nada. Talvez fossem aquele branco liso e calmo que Caio F. fala sobre em Uma História de Borboletas, aqueles bichos brancos e sujos. Mas não havia uma borboleta sequer em meus cabelos, nem nos das outras pessoas. A próxima manhã, espero ser azul e quente.
Outro cigarro, e mais outro, e outro, até acabar o maço. Nenhum deles apagado na língua, tampouco nos olhos. Pelo menos não visivelmente, nem por mim.

Hero/Heroine.

Ontem eu pensei no dia em que fomos enquadrados pela polícia por estarmos fumando maconha. Você se lembra de como gelamos quando o policial de ombros e peitoral do tamanho do mundo perguntou nossos nomes e pediu o número de nossas identidades? Hoje não fumo mais cinco baseados por dia. Aliás, nao fumo nem um. Só cigarro, mesmo. Lucky Strike, aquele que você odiava.
Lembrei das várias noites banhadas à pinga de dois reais, e de você segurando meu cabelo pra eu vomitar. Nós ríamos de tudo. Qualquer pedra caindo no chão era capaz de nos deixar sem fôlego.
Hoje, só bebo café.
Você costumava me contar a história de um amigo seu de infância, que mal saía de casa, e gostava muito de ler livros. Você dizia que ele nao aproveitava a vida, e que morreu por causa disso. Você dizia que não conseguiria passar uma noite sequer dentro de casa, e que livros não davam barato. Eu descobri que amo ler, e sempre dou risada quando penso na cara que você faria se me visse sentada numa poltrona com um livro aberto em meu colo.
"Um dia, nós vamos pra Europa. Em alguns lugares, lá é tudo liberado. Ir pra lá com você vai ser a melhor coisa do mundo".
"Você me faz bem, sabe? Chega a me fazer mais bem que a maconha.. E olha que isso é raro acontecer".
Sete anos, e eu ainda lembro de como você falava sobre ser vítima das circunstâncias. Eu não sabia quais eram elas, mas prefiro acreditar que eram as culpadas, mesmo.
Sete anos, e não tem um dia sequer que eu não pense em você. Penso na chance que você teria se não tivesse se rendido completamente. Tenho certeza de que teria sido uma pessoa incrível, um pai incrível, um marido incrível, se tivesse superado.
A heroína te tirou de mim, e eu sempre achei que heroínas salvassem as pessoas.
Você dizia que eu era a sua, e por muito tempo a ideia de que eu poderia te salvar me corroeu por dentro. Ler histórias em quadrinho quando se está chapado é capaz de te deixar confuso sobre o que acredita ou não. Eu achava ser a sua mulher maravilha, ou algo do tipo.
Fiquei achando que era culpa minha, e quase tive o mesmo fim que você. Essa ideia de que eu era a sua heroína, e que foi a heroína que te matou, fez com que me sentisse culpada.
Mas sua heroína era outra.

Back to business.

Business ou não, o fato é que minhas aulas voltaram. O que quer dizer que voltei a escrever.
Em breve novas postagens.

Answer.

Não foi fácil, sabe? Aquela coisa toda de ir embora... Foi desgastante e confuso, e hoje eu acredito que tenha sido errado. Errado e precipitado.
Eu sei que é egoísta da minha parte aparecer depois de dois anos e te mergulhar nesse pedido de desculpas que você sempre soube que existiu, mas nunca teve. Eu vi o quanto você sofreu, eu vi o quanto você se perdeu.

Não foi fácil, sabe? Eu tive que me desfazer daquela música, também. E quando meu celular tocou, mostrando que era você, mostrando que estava no show, eu quis atender, eu quis gritar que a Alemanha nao é nada, que eu a queria aqui comigo! Não tive coragem.

Eu também sinto sua falta. Sinto mesmo, de verdade.
Que raiva do avião que me levou daí.

Dont waste your time.

Em tempo:
Eu nunca disse que escrevia bem.

Cativar-te-ei. Ou não.

E nós estavámos ali, parados no meio daquela praça vazia, sem dizer nada. O vento fazia seus cabelos balançarem de um jeito disforme, agradável.
Há doze meses você pediu permissão para se sentar na cadeira vaga da mesa em que eu estava, naquela cafeteria simpática no centro da cidade. Há doze meses, eu o permiti. Há doze meses, sentados frente a uma mesa daquela cafeteria simpática, nós conversamos sobre nossas vidas e gostos. Há doze meses, passamos a nos encontrar sempre naquela mesma mesa daquela cafeteria simpática.
Você me cativou, me fez precisar da sua companhia, da sua voz, do seu sorriso, do seu cheiro, das suas cores. Você me cativou.
E naquela hora, aquela na praça vazia, com o vento... estava tão frio. O que eu mais queria era que você me abraçasse, mas isso não aconteceu. Não naquela hora fria. Você, por dentro, estava como o final do mês de junho, como o vento que batia no meu e no seu rosto. Você não era nada você. Ou então estivesse sendo mais do que nunca. Mas o que marcou, foi que você, em meio aquelas golfadas frias de ar, não era nada eu.
E única coisa em que eu pensava era seu hálito de café habitual, que aliás, no momento não existia. Seu hálito de café e tudo que estava relacionado a ele: as vezes em que você me acordou sussurando em meu ouvido, os beijos, as brigas, as conversas, os abraços, a gente. Naquela hora, era como se nada disso tivesse existido.
Você finalmente me abraçou, mas não dizia nada. Eu não queria mais ficar envolta em seus braços, eu queria uma explicação. Mas o que recebi foi seu sussuro - sem cheiro de café -, dizendo "acabou".
E agora eu me pergunto, te pergunto: você não aprendeu com O Pequeno Príncipe que nós nos tornamos responsáveis pelo que cativamos?
Eu aprendi que nós só conhecemos bem as coisas que cativamos, e naquela hora, eu não te conhecia.

Voce foi embora.

Você foi embora, saiu do Brasil. Nem me disse quando ia, ou para onde ia. Fiquei de novo sem suas palavras - aquelas, trocadas de dia, de tarde, de madrugada, sussuradas, cantadas. Aquelas que eu tanto amava.
Tenho pensado na possibilidade de você lembrar meu nome e meu timbre de voz, mas se sequer deu-se ao trabalho - pequeno, diga-se de passagem - de se despedir, quem dirá que ainda lembra de mim, de tudo o que aconteceu? Talvez até se lembre, mas não liga. Pouco caso das nossas palavras, mais uma vez.
A vontade de ter te visto no show daquela banda - aquela que você me ensinou a gostar - foi imensa. Me fez discar seu número no meu celular e levá-lo à orelha, enquanto o vocalista cantava aquele trecho "sem você na cidade, tudo que tem lá também sumiu". Você não atendeu. Eu queria fazer com que ouvisse a música, com que lembrasse. Com que sentinsse o que eu senti.
Mas não aconteceu nada. Nosso relacionamento de fases - como a mulher da música do Raimundos - havia acabado.
Que raiva do avião que te levou daqui.

Changes

Quando olhei praquele monte de calças, camisetas e meias no chão do meu quarto e comecei a ficar incomodada por não conseguir mais ver a madeira envernizada, subi imediatamente em minha cama, ficando em pé. Tive vontade de pular nela devido ao colchão de molas, mas não o fiz.
Eu olhava aquele monte de pano sujo e suado e via minha vida. Bagunçada, nojenta, gasta. Eu podia ver cada momento dela, cada pedacinho, cada não, cada palavra que não devia ter sido dita, cada frase que não foi.
Eu via um nada. Um nada confuso.
Via meus verões cheios de neve, meu inverno cheio de sol. Era tudo desconexo, tudo sem sentido, tudo de cabeça para baixo.
Via meu outono inteiro verde, e minha primavera sem cor. Desconhecia meu próprio mundinho.
Fiquei algumas meias horas olhando indignada aquela pseudo-vida, pseudo-felicidade. Aquilo me corroía, aquilo tinha que sumir.
Desci da cama. Comecei pelas meias.

Quatro de Janeiro de 2009.

E eu me lembro de quando costumava olhar em seus olhos castanhos e profundos. Eu poderia passar anos procurando alguma coisa neles que não fosse amor, mas não encontraria. Ele costumava se sentir assim por mim, mas por algum motivo eu nao liguei pra isso. Eu simplesmente joguei seus sentimentos numa lata de lixo qualquer. Eu fui tão cruel.
Agora percebo isso quando vejo suas fotos, seu sorriso. Não é como aquele que eu costumava ver, e seus olhos não estão mais tão brilhantes como antes.
Quero dizer, eles estão brilhantes, mas aquele brilho nao é mais pra mim, é pra outra pessoa. Tem outra pessoa no lugar que deveria ser meu. Mas não posso reclamar, eu mesma fiz isso.
E não há nada que eu possa fazer. Não mais.

X

Nós dois sabíamos que ele me tinha nas mãos, e que qualquer meio, qualquer possibilidade de escapar por entre seus dedos feito água corrente não seria agarrado por mim. Acho que eu gostava de não ficar na defensiva em relação ao que sentia. Mas só dessa vez, e só em relação a ele.
Nosso relacionamento era de fases, como a mulher da música do Raimundos - aliás, Raimundos era uma coisa que não faltava -. De vez em quando, ficávamos mais de mês sem conversar, mas a saudade batia com força em um de nós, e voltávamos ao aconchego de nossas próprias palavras. Palavras trocadas de manhã, palavras trocadas de tarde, palavras trocadas de madrugada, palavras cantadas, palavras sussuradas, palavras-imagem, palavras. Ah, como eu amava cada palavra sua...
Mas isso não era bom. Quero dizer, você muitas vezes fez pouco caso da nossa história, das nossas palavras. Se eu parar pra pensar, concluo que você me fez mais mal do que bem. Minha cabeça sabe disso, mas meu coração lateja a ideia de que você me queria bem, de que fui importante.
Você ainda me tira o sono. Você ainda corre como um arrepio em minha nuca - como das vezes em que você suavemente passou seus dedos nela, fazendo meus pelos eriçarem - quando ouço aquela música. Você ainda é o que me vem na cabeça antes de dormir, você ainda se finca dentro de mim, causando dor e dúvida.
Você foi, você é, e eu receio que sempre será parte da minha vida, e eu sinto sua falta.

"É tarde, e quando voltar vai ser melhor. A gente nem vai dormir".
"Que raiva do avião que te levou daqui".
"Ninar você na minha rede, pra gente se encontrar num sonho bom".
"Sem você na cidade, tudo que tem lá tambem sumiu. - Me diz que horas são, que eu vou dormir..."

Que seja, então.

Ela nunca se sentiu tão mal em toda sua vida. Exagero, já se sentiu pior, mas hoje doía tanto, tanto.
O que doía ao certo, não sabia. Só sabia que era insuportável, corrosivo, extremamente putreficante. Podia jurar que, se tudo isso saísse de dentro dela, seria através de nódulos, hematomas e feridas necrosadas. Seria horrível.
Mas pior que ter o corpo e a pele completamente machucados, é ter tudo confuso dentro de si. Pensamentos desconexos, atormentadores e cortantes. São como estalactites - grandes, pontudos e pesados - caindo em sua direção, não te dando opções de fuga, te mostrando que vão te pegar, e que isso vai doer.
Não há como evitar ou dispersar.
Sugere a si mesma que vá dormir, tendo a esperança de que quando acordar, nao haverá mais nada. Relevar é, às vezes, essencial. Independente de como está, de como esteve. Ou então não relevar, mas fazer disso algo possivelmente agradável. Como aprendido com sua amiga, que por sua vez aprendeu com Caio Fernando Abreu, que seja doce.
Que o sonho seja doce, que a manhã seja doce, que a dor seja doce, que as feridas sejam doces, que a vida seja doce.
Que ela seja doce.

Twitter

Seguidores

Visitantes

free counters
 

Tonksbond Blog | Layout por @vtkosq