Quando olhei praquele monte de calças, camisetas e meias no chão do meu quarto e comecei a ficar incomodada por não conseguir mais ver a madeira envernizada, subi imediatamente em minha cama, ficando em pé. Tive vontade de pular nela devido ao colchão de molas, mas não o fiz.
Eu olhava aquele monte de pano sujo e suado e via minha vida. Bagunçada, nojenta, gasta. Eu podia ver cada momento dela, cada pedacinho, cada não, cada palavra que não devia ter sido dita, cada frase que não foi.
Eu via um nada. Um nada confuso.
Via meus verões cheios de neve, meu inverno cheio de sol. Era tudo desconexo, tudo sem sentido, tudo de cabeça para baixo.
Via meu outono inteiro verde, e minha primavera sem cor. Desconhecia meu próprio mundinho.
Fiquei algumas meias horas olhando indignada aquela pseudo-vida, pseudo-felicidade. Aquilo me corroía, aquilo tinha que sumir.
Desci da cama. Comecei pelas meias.
Quatro de Janeiro de 2009.
E eu me lembro de quando costumava olhar em seus olhos castanhos e profundos. Eu poderia passar anos procurando alguma coisa neles que não fosse amor, mas não encontraria. Ele costumava se sentir assim por mim, mas por algum motivo eu nao liguei pra isso. Eu simplesmente joguei seus sentimentos numa lata de lixo qualquer. Eu fui tão cruel.
Agora percebo isso quando vejo suas fotos, seu sorriso. Não é como aquele que eu costumava ver, e seus olhos não estão mais tão brilhantes como antes.
Quero dizer, eles estão brilhantes, mas aquele brilho nao é mais pra mim, é pra outra pessoa. Tem outra pessoa no lugar que deveria ser meu. Mas não posso reclamar, eu mesma fiz isso.
E não há nada que eu possa fazer. Não mais.
Agora percebo isso quando vejo suas fotos, seu sorriso. Não é como aquele que eu costumava ver, e seus olhos não estão mais tão brilhantes como antes.
Quero dizer, eles estão brilhantes, mas aquele brilho nao é mais pra mim, é pra outra pessoa. Tem outra pessoa no lugar que deveria ser meu. Mas não posso reclamar, eu mesma fiz isso.
E não há nada que eu possa fazer. Não mais.
X
Nós dois sabíamos que ele me tinha nas mãos, e que qualquer meio, qualquer possibilidade de escapar por entre seus dedos feito água corrente não seria agarrado por mim. Acho que eu gostava de não ficar na defensiva em relação ao que sentia. Mas só dessa vez, e só em relação a ele.
Nosso relacionamento era de fases, como a mulher da música do Raimundos - aliás, Raimundos era uma coisa que não faltava -. De vez em quando, ficávamos mais de mês sem conversar, mas a saudade batia com força em um de nós, e voltávamos ao aconchego de nossas próprias palavras. Palavras trocadas de manhã, palavras trocadas de tarde, palavras trocadas de madrugada, palavras cantadas, palavras sussuradas, palavras-imagem, palavras. Ah, como eu amava cada palavra sua...
Mas isso não era bom. Quero dizer, você muitas vezes fez pouco caso da nossa história, das nossas palavras. Se eu parar pra pensar, concluo que você me fez mais mal do que bem. Minha cabeça sabe disso, mas meu coração lateja a ideia de que você me queria bem, de que fui importante.
Você ainda me tira o sono. Você ainda corre como um arrepio em minha nuca - como das vezes em que você suavemente passou seus dedos nela, fazendo meus pelos eriçarem - quando ouço aquela música. Você ainda é o que me vem na cabeça antes de dormir, você ainda se finca dentro de mim, causando dor e dúvida.
Você foi, você é, e eu receio que sempre será parte da minha vida, e eu sinto sua falta.
"É tarde, e quando voltar vai ser melhor. A gente nem vai dormir".
"Que raiva do avião que te levou daqui".
"Ninar você na minha rede, pra gente se encontrar num sonho bom".
"Sem você na cidade, tudo que tem lá tambem sumiu. - Me diz que horas são, que eu vou dormir..."
Nosso relacionamento era de fases, como a mulher da música do Raimundos - aliás, Raimundos era uma coisa que não faltava -. De vez em quando, ficávamos mais de mês sem conversar, mas a saudade batia com força em um de nós, e voltávamos ao aconchego de nossas próprias palavras. Palavras trocadas de manhã, palavras trocadas de tarde, palavras trocadas de madrugada, palavras cantadas, palavras sussuradas, palavras-imagem, palavras. Ah, como eu amava cada palavra sua...
Mas isso não era bom. Quero dizer, você muitas vezes fez pouco caso da nossa história, das nossas palavras. Se eu parar pra pensar, concluo que você me fez mais mal do que bem. Minha cabeça sabe disso, mas meu coração lateja a ideia de que você me queria bem, de que fui importante.
Você ainda me tira o sono. Você ainda corre como um arrepio em minha nuca - como das vezes em que você suavemente passou seus dedos nela, fazendo meus pelos eriçarem - quando ouço aquela música. Você ainda é o que me vem na cabeça antes de dormir, você ainda se finca dentro de mim, causando dor e dúvida.
Você foi, você é, e eu receio que sempre será parte da minha vida, e eu sinto sua falta.
"É tarde, e quando voltar vai ser melhor. A gente nem vai dormir".
"Que raiva do avião que te levou daqui".
"Ninar você na minha rede, pra gente se encontrar num sonho bom".
"Sem você na cidade, tudo que tem lá tambem sumiu. - Me diz que horas são, que eu vou dormir..."
Que seja, então.
Ela nunca se sentiu tão mal em toda sua vida. Exagero, já se sentiu pior, mas hoje doía tanto, tanto.
O que doía ao certo, não sabia. Só sabia que era insuportável, corrosivo, extremamente putreficante. Podia jurar que, se tudo isso saísse de dentro dela, seria através de nódulos, hematomas e feridas necrosadas. Seria horrível.
Mas pior que ter o corpo e a pele completamente machucados, é ter tudo confuso dentro de si. Pensamentos desconexos, atormentadores e cortantes. São como estalactites - grandes, pontudos e pesados - caindo em sua direção, não te dando opções de fuga, te mostrando que vão te pegar, e que isso vai doer.
Não há como evitar ou dispersar.
Sugere a si mesma que vá dormir, tendo a esperança de que quando acordar, nao haverá mais nada. Relevar é, às vezes, essencial. Independente de como está, de como esteve. Ou então não relevar, mas fazer disso algo possivelmente agradável. Como aprendido com sua amiga, que por sua vez aprendeu com Caio Fernando Abreu, que seja doce.
Que o sonho seja doce, que a manhã seja doce, que a dor seja doce, que as feridas sejam doces, que a vida seja doce.
Que ela seja doce.
O que doía ao certo, não sabia. Só sabia que era insuportável, corrosivo, extremamente putreficante. Podia jurar que, se tudo isso saísse de dentro dela, seria através de nódulos, hematomas e feridas necrosadas. Seria horrível.
Mas pior que ter o corpo e a pele completamente machucados, é ter tudo confuso dentro de si. Pensamentos desconexos, atormentadores e cortantes. São como estalactites - grandes, pontudos e pesados - caindo em sua direção, não te dando opções de fuga, te mostrando que vão te pegar, e que isso vai doer.
Não há como evitar ou dispersar.
Sugere a si mesma que vá dormir, tendo a esperança de que quando acordar, nao haverá mais nada. Relevar é, às vezes, essencial. Independente de como está, de como esteve. Ou então não relevar, mas fazer disso algo possivelmente agradável. Como aprendido com sua amiga, que por sua vez aprendeu com Caio Fernando Abreu, que seja doce.
Que o sonho seja doce, que a manhã seja doce, que a dor seja doce, que as feridas sejam doces, que a vida seja doce.
Que ela seja doce.
Suma.
Eu não quero te ver hoje, não quero te ver amanhã, não quero te ver depois de amanhã, não quero te ver fim de semana que vem. Nem no outro. E muito menos no outro.
Não quero ter que lidar com sua voz, seu sorriso, seus gestos. Não quero ter que interagir com você.
Eu cansei de acreditar que você se importa, somente tendo suas palavras afirmando isso. Eu não posso fazer absolutamente nada com suas palavras. Eu não posso transformá-las em verdade. Quem tem o poder para fazer isso é você, que falha completamente.
Eu cansei de esperar por uma coisa que talvez até exista, mas que não se mostra.
Por isso eu não quero te ver. Não quero te ver mês que vem, nem no outro. Não quero te ver no próximo feriado, nem nas férias.
Por favor, só pegue suas coisas e saia.
Suma.
Não quero ter que lidar com sua voz, seu sorriso, seus gestos. Não quero ter que interagir com você.
Eu cansei de acreditar que você se importa, somente tendo suas palavras afirmando isso. Eu não posso fazer absolutamente nada com suas palavras. Eu não posso transformá-las em verdade. Quem tem o poder para fazer isso é você, que falha completamente.
Eu cansei de esperar por uma coisa que talvez até exista, mas que não se mostra.
Por isso eu não quero te ver. Não quero te ver mês que vem, nem no outro. Não quero te ver no próximo feriado, nem nas férias.
Por favor, só pegue suas coisas e saia.
Suma.
Tapa na cara.
Real life sent you a kiss.
Real life sent you A BIG FAT KISS.
_|_
Real life sent you A BIG FAT KISS.
_|_
Vida - ou a falta dela.
O que aconteceu não era de todo culpa dele. Não há nada de errado em dizer adeus pra alguém, quando você sente que deve; quando sente que, se não disser, uma parte de você ficará impenetrável, morta.
E apesar de todos os seus amigos - e amigas dela, também - insistirem que o motivo principal não havia sido o término, ele se sentia péssimo. Não havia como não se sentir.
No dia, os pais dela agiram como se ele a tivesse induzido a fazer tal coisa. Chamaram-no de assassino, de crápula, de monstro. Ainda olham pra ele com nojo e ódio.
Não houve um motivo exato. Talvez até houvesse, mas ninguem ousava falar. É sabido que muita coisa a incomodava. A falta de controle sobre sua própria vida era, talvez, a maior delas.
Ela achava um absurdo não poder controlar os próprios limites, os próprios sonhos, os próprios setimentos, as próprias palavras, a própria comida favorita, as próprias roupas, a cor do próprio edredom... Seu pai, e principalmente sua mãe, o faziam.
E eu, pessoalmente, os culpo.
Ela se apoiava muito nele. Naquele dito acima, que se sentia culpado. Nunca havia gostado tanto de alguém, nem mesmo daquele primeiro namorado, que a dedicou uma música de composição própria e mandava cestas de café da manhã nos aniversários de namoro. Nem mesmo dele.
Ele também nunca gostara de alguém tanto quanto gostou dela. A diferença é que ela o amava, e ele só... gostava. Seu sentimento se esgotava enquanto o dela só aumentava, e não é bom quando um tem de mais, e o outro, de menos.
Foi por isso que ele teve de dizer adeus.
Mas enquanto ele se despediu de uma única pessoa, ela se despediu de todos. Ele era a única coisa que a fazia suportar aquele inferno que era não controlar o que faz, já que com ele, sentia-se livre. Ele a ensinou a sentir-se livre. Ela aprendeu tão bem, que levou isso consigo depois do adeus.
Sentia-se tão livre que viu que tinha liberdade até para controlar sua vida. E nesse caso, vida no sentido de ter um coração batendo e um cérebro pensando.
Não foi culpa dele.
E apesar de todos os seus amigos - e amigas dela, também - insistirem que o motivo principal não havia sido o término, ele se sentia péssimo. Não havia como não se sentir.
No dia, os pais dela agiram como se ele a tivesse induzido a fazer tal coisa. Chamaram-no de assassino, de crápula, de monstro. Ainda olham pra ele com nojo e ódio.
Não houve um motivo exato. Talvez até houvesse, mas ninguem ousava falar. É sabido que muita coisa a incomodava. A falta de controle sobre sua própria vida era, talvez, a maior delas.
Ela achava um absurdo não poder controlar os próprios limites, os próprios sonhos, os próprios setimentos, as próprias palavras, a própria comida favorita, as próprias roupas, a cor do próprio edredom... Seu pai, e principalmente sua mãe, o faziam.
E eu, pessoalmente, os culpo.
Ela se apoiava muito nele. Naquele dito acima, que se sentia culpado. Nunca havia gostado tanto de alguém, nem mesmo daquele primeiro namorado, que a dedicou uma música de composição própria e mandava cestas de café da manhã nos aniversários de namoro. Nem mesmo dele.
Ele também nunca gostara de alguém tanto quanto gostou dela. A diferença é que ela o amava, e ele só... gostava. Seu sentimento se esgotava enquanto o dela só aumentava, e não é bom quando um tem de mais, e o outro, de menos.
Foi por isso que ele teve de dizer adeus.
Mas enquanto ele se despediu de uma única pessoa, ela se despediu de todos. Ele era a única coisa que a fazia suportar aquele inferno que era não controlar o que faz, já que com ele, sentia-se livre. Ele a ensinou a sentir-se livre. Ela aprendeu tão bem, que levou isso consigo depois do adeus.
Sentia-se tão livre que viu que tinha liberdade até para controlar sua vida. E nesse caso, vida no sentido de ter um coração batendo e um cérebro pensando.
Não foi culpa dele.
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